quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

De que maneira Gênesis 1 pode harmonizar-se com a evolução teística?

esboços de sermão

Para tratar esta questão, é necessário compreender corretamente o termo “evolução” visto que a palavra é usada em vários sentidos por diversos tipos de pessoas. Devemos fazer distinção entre evolução como filosofia e evolução como mecanismo descritivo do desenvolvimento das espécies, de um estágio inferior, primitivo para outros “mais elevados” ou mais complexos, no decurso da história geológica. Além disso, precisamos estabelecer o que se quer dizer por evolução “teística”. Daí estaremos em melhores condições para tratar da relação entre evolução e criacionismo de Gênesis 1.

A evolução como filosofia
A evolução como filosofia procura explicar que o universo físico – e de modo geral especial o  biológico – tem um autodesenvolvimento, a partir da matéria bruta, cuja origem é desconhecida, podendo-se, todavia, considerar que tenha existência eterna, sem ter possuído um começo. A evolução filosófica elimina toda e qualquer direção ou intervenção da parte de um Deus pessoal e lança dúvidas quanto á realidade até de um Poder Superior. A questão toda é regida por leis físicas imutáveis e, por último, é o produto de mero acaso. Não há razão para a existência, tampouco para um propósito real na vida. O homem deve agir como se fora um fim em si próprio. Ele é seu próprio legislador por excelência e a ninguém deverá prestar conta senão à sociedade humana. A lei e a ética têm base utilitária – que produz o melhor para o maior número de indivíduos.
Nem todas essas posições foram propostas por Charles Darwin em sua obra clássica A origem das espécies. No entanto, ele não defenderia uma posição de ateísmo persistente, própria da evolução filosófica, pois cria num Deus Criador como logicamente necessário para explicar a existência anterior da matéria bruta original, a partir da qual surgiram as formas primitivas de vida. Seria mais certo chamar Darwin teísta em vez de ateísta, ainda que se sistema fosse adotado  por pessoas que negam a existência de Deus. No entanto, devemos salientar que o ateísmo persistente, o qual a si mesmo se intitula o método mais racional e lógico dentro todos os que se propõem a analisar a realidade, é na verdade um sistema que se derrota por si só, incapaz que é de prover um autodefesa lógica. Isso quer dizer que, se  a matéria toda se associou de tal forma, por mero acaso, sem a direção de nenhum Poder Superior, nenhuma Inteligência Transcendental, segue-se necessariamente que as moléculas do cérebro humano também são produto do mero acaso. Noutras palavras, pensamos da forma que imaginamos, simplesmente porque os átomos e as moléculas de nosso cérebro se associaram por acaso, sem nenhuma orientação ou controle transcendental. Portanto, até mesmo as filosofias dos homens, seus sistemas de lógicas e todas as abordagens da realidade que apresentam são coisas fortuitas. Não existe absolutamente validade alguma em algum argumento apresentado pelo ateu contra a posição do teísmo.
Com base em pressuposições próprias, o ateu anula completamente a si próprio, visto que, segundo suas premissas, seus argumentos são destituídos de valor. Pelo que ele mesmo professa, ele pensa como pensa simplesmente porque os átomos de seu cérebro se associaram do jeito que se associaram. Se assim for, o ateu não poderá dizer honestamente que sua opinião tem mais valor que a contrária. Seus postulados básicos contradizem-se e derrotam-se a si mesmos, pois quando o ateu afirma que não existem absolutos, ao mesmo tempo está afirmando um absoluto dogmático. Tampouco consegue provar a inexistência do Criador sem apelar para uma lógica que essencialmente depende da existência de Deus para ter algum valor. Afora a garantia transcendental da validade da lógica, quaisquer apelos à lógica ou á argumentação são simples manifestações do comportamento descrito como associação das moléculas que compõem o cérebro do pensador.

A evolução como mecanismo descritivo
A evolução como mecanismo descritivo refere-se ao processo pelo qual formas menos avançadas de vida desenvolvem-se e atingem maior complexidade. Pensa-se que isso ocorre por causa de algum tipo de diretriz interna dinâmica que, sem nenhum controle ou interferência externa, opera de acordo com padrões próprios. Nos dias de Darwin acreditava-se  que esse desenvolvimento era resultante de um acúmulo de características casuais e da retenção de leves variações surgidas durante os estágios primitivos da evolução das espécies, sendo passadas de geração em geração mediante a genética.
No entanto, desde os dias de Darwin, essa fórmula de evolução baseada no processo mecanicista, governado pelo princípio da “sobrevivência do mais apto”, por causa de uma variedade de razões, veio a perder apoio no século  XX. As experiências de G.S. Mendel com a genética de plantas demonstraram de modo conclusivo que o grau de variações possíveis dentro da mesma espécie estava estritamente limitado, não oferecendo nenhuma possibilidade de desenvolvimento de modo que se conseguisse uma espécie nova diferente. Após grande número de experiências a respeito da impossibilidade de as características serem herdadas, ficou determinado pelos geneticistas, no final do século, que não existia absolutamente essa coisa chamada transmissão de características adquiridas, visto não haver um modo de codificá-las nos genes dos pais que as desenvolveram (cf. Darwim, antes e depois), de Robert E.D. Clark (Chicago, Moody, 1967).
Quanto a série contínua de transição pela teoria de Darwin, para marcar a ascensão de espécies “inferiores” para “superiores”, na escala do desenvolvimento biológico, a pesquisa mais aprofundada possível levou os cientistas finalmente a entender de modo conclusivo que não existem os chamados “elos faltantes”. Assim é que Austin H. Clark (The New evolution, New Haven, Yale, 1930) confessa: “Se estivermos dispostos a aceitar que jamais existiram os chamados [seres] intermediários, ou, em outras palavras, que esses grupos maiores desde o início mantiveram-se entre si o mesmo relacionamento que possuem hoje”. De modo semelhante. G.C. Simpson concluiu que cada uma das 32 ordens de mamíferos apareceu de repente no registro paleontológico. “Os membros mais primitivos e mais antigos em cada espécie tinham já as suas características básicas, e nenhum caso se conhece de uma sequência  contínua aproximada que partiu de uma espécie para outra (Tempo and mode in evolution, Nova York, Columbia, 1944, p. 106).
Portanto, foi necessário que Clark e Simpson propusessem um tipo inteiramente antidarwiniano de evolução, a quem deram o nome “teoria do quantum” ou “evolução emergente”. Tal teoria afirma que ou novas formas surgem dramaticamente por mero acaso, ou por causa de algum tipo de resposta criativa a novos fatores ambientais. Nenhuma hipótese se aventou a respeito da origem dessa capacidade de “resposta criativa”. Da perspectiva do darwinismo, isso dificilmente poderia ser considerado evolução.
Quanto a algumas séries que passaram por desenvolvimento e são habitualmente  mostradas em livros escolares e em museus, tentando demonstrar como a evolução funcionou nos cavalos e nos seres humanos desde os tempos mais antigos da era cenozoica até os tempos modernos, é preciso entender que tais demonstrações nada comprovam a respeito do mecanismo que presidiu esse desenvolvimento. A constatação de continuidade num projeto biológico básico não significa de modo algum estar comprovado que uma espécie “inferior” evoluiu para uma “superior” mediante algum tipo de dinâmica interna, de acordo com a exigência da teoria da evolução.

Evolução teística
A evolução teística concebe a existência de Deus como Criador de todas as substâncias materiais do Universo, como Projetista de todos os processos a ser seguidos pelas várias espécies botânicas e zoológicas no desenvolvimento de seu plano-mestre. Diferentemente do  evolucionista filosófico, o teísta insiste que a matéria  não era eterna, mas foi criada por Deus, do nada, tendo sido controlada em seu desenvolvimento segundo o plano que o Senhor traçou. Noutras  palavras, o mecanismo todo do processo evolucionista foi e continua sendo traçado e controlado pelo Criador, não por alguma força misteriosa e inexplicável, que não se pode pesquisar nem entender.
Quando sopesamos a questão de poder ou não a evolução teística ser harmonizada em Gênesis 1, precisamos analisar com o máximo cuidado e verificar se estamos tratando de um conceito teísta ou semiteista de um Deus que apenas lançou o sistema, tendo-o programado antecipadamente como se faz com um computador, e depois retirou-se e ficou observando o funcionamento automático do maquinismo cósmico. Esse Criador está fora do alcance da oração e não se interessa de modo ativo e contínuo pelas necessidades de suas criaturas. Não existe, então, comunicação com o Senhor, de quem tampouco podemos esperar salvação. Tudo se encerra no arcabouço de um determinismo rígido.
Outra alternativa é que estejamos tratando de uma evolução teística em que há lugar para a oração e para o relacionamento entre os seres humanos e o Criador. Tal evolução teística, contudo, concebe Deus como o que determina a ascenção das espécies biológicas, mediante certo tipo de mecanismo evolutivo, cujo dinamismo e direção encontram-se em si mesma. Diante do fundamento científico fraco em que assentam os dados concernentes à evolução proposta por Darwim diante do fato de que foi praticamente rejeitado pelos evolucionistas “emergentes”, parece existir pouquíssimo espaço até para o cientista teísta pode apegar-se com firmeza a algum tipo de evolucionismo. Essas duas modalidades de evolucionismo apresentam entre si a mesma semelhança que se verifica entre a democracia  americana  e a “democracia” dos países da extinta cortina de ferro. Se algum cientista aceitar as implicações da integridade das espécies, de acordo com os limites de Mendel, poder-se-á talvez afirmar que aceita os sucessivos estágios da criação das espécies botânicas e animais, e os gêneros e ordens segundo a sua espécie, como está bem claro em Gênesis 1.11,12,21. Se esse cientista  entender que os seis dias da criação, na mente do Criador, são uma sucessão de estágios definidos no desenvolvimento ordenado do mundo biológico até a criação do homem, concordaríamos então que isso se harmoniza com a intenção básica daquele primeiro capítulo de Gênesis. Tudo isso, naturalmente, depende de o evolucionismo teísta aceitar Adão e Eva como indivíduos literais, históricos, criados. Muitos deles não o fazem, mas concebem que o homosapiens se desenvolveu  gradualmente de um hominídeo subumano para depois, finalmente, desenvolver uma consciência de Deus – momento em que, quando quer que tenha ocorrido, o homem-macaco tornou-se Adão. Esse, tipo de abordagem dificilmente  se pode conciliar com a apresentação de Adão e de Eva como indivíduos históricos com emoções e reações pessoais conforme aparecem em Gênesis 2 e 3 (e certificadas por 1ª Timóteo 2.13-14). Qualquer interpretação supra-histórica de Adão tal como defende a neo-ortodoxia, sem dúvida alguma entra em choque com a Escritura Sagrada e com a fé evangelística.


pr. altamir de souza
Na Visão de Multidões!
Shalom Aleichem, Aleichem Shalom
A paz seja convosco, convosco esteja a paz
(Fonte de pesquisa: Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas)